Neste filme, o diretor Wong Kar-Wai trabalha com seu diretor de fotografia favorito, Christopher Doyle, e também com o fotógrafo Keung Lau Wai. Talvez seja por isso que essa obra seja tão perfeita, complexa e completa, com um preciosismo tamanho que a torna impecável em termos estéticos, sendo, pelo menos para mim, a melhor de Wong Kar-Wai.
O filme Chungking Express trata de duas histórias paralelas, que acontecem quase ao mesmo tempo, e que de alguma forma, sutilmente, se encontram. São histórias de vidas que vagueiam pela cidade, assim como em My Blueberry Nights. Mas aqui, em Chungking Express, as histórias são de amores razos, rápidos, assim como o nome diz, “amores expressos”.
Esse filme carrega a poética, tão bem formulada, da mistura das pessoas com os elementos da cidade. As sombras da fotografia consomem os personagem, os borram, moldam suas silhuetas, escondem e ocultam, e mostram quando deve. Neste filme eu sinto a explosão da estética de Wong Kar-Wai, um relicário de todas as suas marcas mais profundas, resumidas na estética, na arte e na fotografia.
Diretores de Fotografia
Christopher Doyle já trabalhou com Wong Kar-Wai em diversos outros filmes como Fallen Angels, Ashes Of The Time, 2046, dentre outros. A sua marca na maioria dos filmes, visto em outros filmes em que trabalhou (Hero, Psycho, etc.), é com certeza a utilização e mistura de cores fortes, contrastes e saturação de imagens.
Keung Lau Wai também já trabalhou em alguns dos filmes de Wong Kar-Wai e também dirigiu vários longas. Assim como Christopher Doyle, ele também tem uma influência muito forte no trabalho com as cores.
A Profundidade de Campo como Icógnita
Quando vejo os contrastes estéticos dos filmes de Wong Kar-Wai sinto um certo tom de ironia – ou talvez melhor, uma metáfora – em relação à vida. Como se a cidade estivesse sempre cheia, sempre misteriosa, e nós completamente vazios, à mercê de algo que pode surgir por entre as sombras. Em diversas cenas é assim, o silêncio e o escuro são convidativos, e demonstram a imensidão e dimensão dos cenários, sempre com algo “por de trás”, mas que não podemos enxergar. E nada mais poderia caber tão perfeitamente, pois em Chungking Express assim como percebemos a solidão das sombras também sentimos a solidão dos personagens – caracterizados por pessoas perdidas pelas cidades, em busca do que perderam ou do que almejam – e tudo isso se assemelha com as sombras que nos dão a impressão da imensidão e por conseqüência da perdição, pois são nas sombras que os personagens se perdem. Mas em contraponto o filme possuí também cenas com fotografia naturalista, demonstrando os momentos de neutralidade e calmaria pelos quais os personagens passam.
Diversidade de Elementos de Cena
É neste filme que o diretor Wong Kar-Wai mais trabalha com elementos e objetos narrativos e contextualizadores. Junto com a fotografia, a arte trabalha a contraposição de cores frias e quentes o tempo inteiro. Neste filme vemos uma mistura étnica devido aos diversos tons que ele assume: elementos hindus, norte-americanos, europeus, japoneses e chineses. Alguns cenários beiram o kitsch, pois assim como as sombras nos dão a impressão de imensidão, o exagero dos elementos – o próprio kitsch – nos trazem a sensação de aperto, de um local cheio de memórias que nos sufoca. Isso acontece principalmente com a casa do policial 633, que é uma mistura estranha de lembranças, coisas, adornos e cores. Claro que esses elementos não seriam nada, e nem nos passaria a impressão que passam sem a fotografia adequada. Ao imaginar como aquela casa seria sem a iluminação que lhe foi empregada vejo que seria uma casa como qualquer outra, uma casa simples. Mas para a tensão do filme, – e como já disse anteriormente – a sensação de sufoco, se torna necessário a invasão e variação fotográfica, utilizando sombras e luz o tempo inteiro, nos afirmando ainda mais todas as sensações.
Poética dos Espelhos
A utilização de espelhos, em todos os filmes, e nesse mais que todos os outros, como na cena, de Chungking Express, em que Faye limpa a vidraça da loja, e na mesma direção está o policial 633. Ela alisa a vidraça como se desenhasse o corpo dele, mas neste momento ele ainda está distante dos sentimentos dela.
Velocidade e Borrão
Nas cenas de perseguição e grande movimentação dos personagens e câmeras, a direção de fotografia deixa a imagem borrar e tremer ao extremo, sofrendo cortes abruptos e cortes na continuidade da imagem. Dessa forma a gente tem a impressão de maior velocidade da cena, e os borrões nos impedem de perceber detalhes, nos focando apenas na essência da cena, e fazendo ainda mais os personagens se misturarem com o ambiente que permanece borrado.
Prêmios
O filme Chungking Express foi indicado ao Prêmio de Cinema de Hong Kong com a melhor fotografia de Christopher Doyle e Keung Lau Wai, além de ter ganho como melhor filme, melhor diretor, melhor ator e melhor montagem, dentre outros.






